Gabriel Vituri,
30 anos, doutorando
Como tirou a licença: É freelancer e ficou três meses sem trabalhar. Até hoje, trabalha de casa. 

Foto: arquivo pessoal

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Demorou bastante tempo para eu sacar que dividir função é dividir carga mental. Não adianta nada trocar fralda e arrumar a casa, sem perceber que eu apenas fazia essas coisas porque a minha parceira me mostrava que essas coisas tinham que ser feitas. Na prática, eu dava banho nela, eu trocava ela, botava pra arrotar e pra dormir. Eu achava muito. Você acha que está sendo muito legal, mas você nem está sendo tanto assim, sabe?

 

Depois que ela nasceu, eu resolvi sair do meu trabalho anterior. Foi complicado. Mas depois que ela nasceu, eu entendi que o tempo é muito valioso, a gente não pode perder tempo com besteira, nosso tempo vale muito.

 

Uma das grandes dificuldades para construir o vínculo enquanto pai, foi me sentir seguro com ela. Me sentir seguro sozinho com ela, o dia inteiro e saber que não vai faltar nada. Hoje eu sei que vai dar certo. Temos uma relação que não é socialmente determinada, não é só uma relação de “pai e filha” que segue termos pré-determinados. É uma relação que a gente construiu, e que é só nossa. Ela veio do convívio.

 

Eu nunca tive nostalgia da vida que eu tinha antes, tipo: “ah, eu estou muito mal porque não posso mais sair e ficar perambulando pelas rua de madrugada”. Óbvio que eu gostava de fazer isso, mas eu nunca senti que a minha vida de antes tinha acabado. Ter tirado a licença fez com que a mudança não fosse brusca. Eu não olhei para o lado e fiquei: “cadê todas as minhas escolhas de antes?”

"Na minha cabeça, eu estava fazendo tudo, participando de tudo, cuidando da minha mulher, da filha. 'Legal. Eu parei tudo para estar aqui'. E, de repente, me senti muito sozinho, muito solitário. Ficava pensando: “e agora? E se tudo isso não preencher esse espaço dentro de mim?” Até hoje me deparo com esse  dilema. Não é uma coisa que passa."

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 ME DÁ LICENÇA - © KARIN HUECK